Com o passar dos anos, o organismo masculino passa por mudanças hormonais silenciosas. Diferente do que muitos imaginam, essa transformação não acontece de repente. O declínio dos níveis de testosterona é progressivo, começa antes da meia-idade e pode afetar diversas funções do corpo, da libido até a saúde óssea.
Entender quando a reposição hormonal masculina é indicada, quais são seus reais benefícios e o que diz a literatura científica sobre o tema é essencial para que o paciente chegue à consulta mais informado e tome decisões em conjunto com o médico especialista.
Por que os níveis de testosterona caem com a idade?
Vários estudos documentam essa mudança com clareza. Um dos mais relevantes é o European Male Aging Study (EMAS), que acompanhou homens de diferentes idades e registrou uma queda média de 0,4% ao ano na concentração sérica total de testosterona. Dados brasileiros apontam na mesma direção: a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) estima que uma parcela significativa dos homens acima dos 40 anos já apresenta algum grau de Deficiência Androgênica do Envelhecimento Masculino, conhecida pela sigla DAEM.
Esse processo é gradual e, em certa medida, esperado pela fisiologia. Ainda assim, quando atinge níveis clinicamente relevantes, o quadro passa a receber o nome de hipogonadismo de início tardio, uma condição que se assemelha ao hipogonadismo causado por doenças hipotálamo-hipofisárias ou testiculares.
O que mais contribui para esse declínio?
Além da idade, dois fatores merecem atenção especial:
Obesidade: homens com excesso de peso apresentam, sistematicamente, níveis mais baixos de testosterona total em comparação a homens de peso adequado da mesma faixa etária. A SBU-SP destaca que a obesidade integra a chamada Síndrome Metabólica, um conjunto que inclui hipertensão, diabetes e dislipidemia, todos acelerando a queda hormonal.
Comorbidades: homens com uma ou mais condições crônicas associadas, como diabetes tipo 2, síndrome metabólica e hipertensão, costumam apresentar concentrações reduzidas tanto de testosterona total quanto de testosterona livre.
Há ainda uma mudança nas gonadotrofinas que vale compreender. À medida que os homens envelhecem, as concentrações séricas de FSH (hormônio folículo-estimulante) e LH (hormônio luteinizante) sobem. Esse aumento, porém, costuma ser menor do que o esperado diante da queda de testosterona observada, o que sugere que o eixo hipotálamo-hipofisário também participa desse processo.
Dr. Tiago
Mierzwa


– Mestre em Clínica Cirúrgica pela Universidade Federal do Paraná
– Coordenador dos Serviços de Andrologia do Hospital Nossa Senhora das Graças e Hospital Universitário Cajuru
– Membro Professor do Departamento de Andrologia da Sociedade Brasileira de Urologia
– Membro da Sociedade Brasileira de Urologia/ American Urological Association/ International Society for Sexual Medicine/ Sociedade LatinoAmericana de Medicina Sexual
– ABEMSS/ Confederación Americana de Urologia/ Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida
Quem pode ser candidato à reposição hormonal masculina?
Essa é uma das perguntas mais frequentes nos consultórios de andrologia. A resposta envolve critérios clínicos específicos, não apenas um exame laboratorial com valor abaixo da referência.
Um documento conjunto publicado em fevereiro de 2026 pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), pela SBU e pela ABEMSS reforça esse ponto: o diagnóstico do hipogonadismo masculino deve obrigatoriamente integrar critérios clínicos e bioquímicos. Não se recomenda rastreamento populacional indiscriminado. A investigação deve chegar apenas a homens com manifestações sugestivas.
O Projeto Diretrizes da Associação Médica Brasileira (AMB) em conjunto com o Conselho Federal de Medicina (CFM) aponta que a reposição tem indicação quando há sintomas compatíveis com deficiência androgênica, associados a níveis séricos de testosterona total abaixo de 300 ng/dL e testosterona livre abaixo de 6,5 ng/dL.
Para homens mais velhos com baixa testosterona sem causa orgânica clara, o cenário é mais nuançado. As principais diretrizes brasileiras convergem para duas posições centrais:
Quando o médico pode considerar o tratamento
O tratamento pode ser considerado quando o paciente apresenta sintomas compatíveis com deficiência androgênica e registra níveis séricos de testosterona consistentemente baixos em mais de uma medição. Nesse caso, a indicação deve ser individualizada, com discussão explícita dos riscos e benefícios.
Quando o tratamento não é recomendado de rotina
Por outro lado, a prescrição rotineira não tem respaldo quando os níveis estão baixos, mas o paciente não apresenta sintomas consistentes com deficiência de androgênio. Da mesma forma, sintomas isolados sem confirmação laboratorial inequívoca também não justificam a intervenção.
Vale destacar que, se o paciente apresentar nódulo prostático palpável ou outros sinais de alerta, o início do tratamento exige avaliação urológica adicional. Após o início, o acompanhamento com dosagens séricas periódicas é parte essencial do protocolo.
Outro ponto importante: a terapia de reposição hormonal também levanta dúvidas sobre riscos cardiovasculares. A literatura mais recente, incluindo dados da Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, mostra que baixos níveis de testosterona estão associados a maior risco de aterosclerose, o que reforça a importância de uma avaliação médica completa antes de qualquer decisão.
Quais são os benefícios documentados da terapia com testosterona?
A literatura disponível aponta para ganhos em diferentes áreas do organismo masculino. Os efeitos variam em intensidade e dependem de fatores individuais, por isso a avaliação médica continua sendo insubstituível.
Função sexual
Estudos mostram melhoras moderadas na atividade sexual, no desejo (libido) e, em menor grau, na função erétil. Isso não significa que a reposição substitui o tratamento específico para disfunção erétil, mas pode contribuir como parte de uma abordagem mais ampla.
Capacidade física
A testosterona atua no metabolismo muscular e na composição corporal. Por isso, a reposição costuma estar associada a melhora na resistência física e na força, sobretudo em homens com deficiência documentada.
Humor e vitalidade
Há evidências de que a deficiência androgênica está ligada a sintomas depressivos e à sensação de fadiga crônica. Nesses casos, a reposição pode contribuir para melhora do humor e da disposição geral, desde que o médico avalie corretamente o quadro clínico subjacente.
Anemia
A testosterona estimula a eritropoiese, que é o processo de formação de novas hemácias. Por isso, a reposição hormonal pode beneficiar homens com anemia associada à deficiência androgênica.
Densidade óssea
Outro efeito bem documentado é a melhora da densidade mineral e da resistência óssea. Em homens com hipogonadismo, a perda óssea tende a se acelerar, e o tratamento pode contribuir para frear essa progressão, reduzindo, por exemplo, o risco de osteoporose.
É possível usar testosterona sem indicação médica?
Essa é uma pergunta que merece atenção. Muitos homens buscam testosterona para fins de desempenho esportivo ou por influência de redes sociais, sem avaliação prévia. A SBU desaconselha e reprime severamente o uso sem prescrição médica de qualquer medicamento à base de testosterona, alertando para riscos como trombose, ginecomastia e elevação do hematócrito.
O uso de anabolizantes esteroides sem prescrição difere bastante da terapia hormonal supervisionada. Além disso, pode causar efeitos adversos sérios, como infertilidade, disfunção erétil e comprometimento do eixo hipofisário. Homens com testosterona normal não se beneficiam da reposição e, ainda assim, se expõem a riscos desnecessários.
A terapia de testosterona tem indicações precisas e deve ser sempre conduzida por um urologista ou andrologista, com monitoramento laboratorial periódico.
Como saber se é hora de procurar um especialista?
O diagnóstico exige avaliação clínica e laboratorial combinadas. Nenhuma lista de sintomas confirma sozinha a necessidade de reposição hormonal. Dito isso, alguns sinais costumam motivar a consulta:
- Queda perceptível no desejo sexual
- Sensação persistente de cansaço sem causa aparente
- Dificuldade de concentração e alterações de humor
- Anemia sem explicação clara
- Redução de massa muscular e aumento de gordura corporal, mesmo com rotina de exercícios
Se você reconhece esses sinais, o caminho mais seguro é conversar com um urologista ou andrologista. Somente a avaliação presencial, com anamnese detalhada e exames específicos, permite definir se a reposição hormonal é de fato indicada para o seu caso.


