Muitos pacientes perguntam qual é a relação direta entre o uso de determinados medicamentos e o surgimento da disfunção erétil.
Primeiro, a disfunção erétil é uma condição multifatorial, isso significa que raramente ela tem uma única causa. Quando avaliamos um paciente, precisamos investigar fatores psicogênicos, hormonais, vasculares e neurogênicos.
Mas existe um fator que frequentemente os pacientes ignoram nessa investigação, os medicamentos que já usam para tratar outras doenças.
É muito comum o paciente chegar ao consultório sem saber que o remédio que ele toma para controlar a pressão arterial, para tratar a depressão ou até mesmo para controlar o colesterol pode estar sendo o principal responsável pela piora da sua função erétil.
Neste artigo, vou explicar quais são as principais classes de medicamentos que provocam disfunção erétil, como elas agem no organismo e o que pode ser feito quando essa é a causa do problema.
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Os medicamentos podem realmente causar disfunção erétil?
Sim, e essa é uma das causas mais subestimadas da disfunção erétil na prática clínica. Estudos indicam que entre 25% e 30% dos casos de disfunção erétil envolvem o uso de medicamentos.
Isso é um número expressivo, por isso é tão importante que o urologista faça uma anamnese detalhada, investigando todos os remédios que o paciente utiliza.
O mecanismo pelo qual isso acontece varia de acordo com a classe do medicamento. Alguns prejudicam o fluxo sanguíneo para o pênis, outros reduzem os níveis de testosterona, outros afetam o sistema nervoso central e comprometem o estímulo necessário para que a ereção ocorra.
Para que a ereção aconteça de forma adequada, é preciso que haja um relaxamento da musculatura lisa do corpo cavernoso, com consequente aumento do fluxo sanguíneo para o pênis. Qualquer medicamento que interfira nesse processo pode comprometer a função erétil.
Quais são os medicamentos anti-hipertensivos que provocam disfunção erétil?
Os medicamentos utilizados para tratar a hipertensão arterial estão entre os que mais frequentemente aparecem associados à disfunção erétil. Isso cria uma situação paradoxal, porque a própria hipertensão não tratada também é um fator de risco para a disfunção erétil.
Por isso, o manejo desse paciente exige muita atenção e individualização.
Betabloqueadores
Os betabloqueadores são uma das classes mais associadas à disfunção erétil. Medicamentos como o propranolol, o atenolol e o metoprolol atuam bloqueando os receptores beta-adrenérgicos, o que reduz a frequência cardíaca e a pressão arterial. O problema é que esse mecanismo também reduz o fluxo sanguíneo periférico, incluindo o fluxo para o tecido erétil do pênis.
Além do efeito vascular, os betabloqueadores têm um impacto sobre o sistema nervoso central que pode reduzir o desejo sexual e dificultar o processo de excitação. Pacientes que usam betabloqueadores com frequência relatam uma piora progressiva da ereção e uma redução da libido, o que pode ser interpretado erroneamente como causa psicológica.
É importante ressaltar que nem todos os betabloqueadores têm o mesmo impacto. Os betabloqueadores de nova geração, como o carvedilol e o nebivolol, têm um perfil mais favorável em relação à função erétil, especialmente o nebivolol, que tem propriedades vasodilatadoras.
Atenção: Jamais substitua ou pare de tomar um medicamento por conta própria, o manejo precisa ser orientado por um médico em uma consulta individualizada.
Diuréticos tiazídicos
Os diuréticos tiazídicos, como a hidroclorotiazida e a clortalidona, também estão entre os medicamentos que provocam disfunção erétil com maior frequência.
O mecanismo principal envolve a redução do volume sanguíneo e alterações no fluxo arterial para o corpo cavernoso. Há também evidências de que os tiazídicos interferem na função do músculo liso vascular, prejudicando ainda mais a capacidade de ereção.
Quando o paciente hipertenso usa a combinação de um betabloqueador com um tiazídico, o risco de disfunção erétil aumenta de forma ainda mais significativa. Por isso, esse é um dado que precisa ser levantado na consulta.
Outros anti-hipertensivos
Outros medicamentos anti-hipertensivos, como a metildopa e a clonidina, que são de ação central, também estão associados à disfunção erétil. Eles atuam no sistema nervoso central reduzindo o tônus simpático, o que pode comprometer tanto o desejo sexual quanto o mecanismo neurogênico da ereção.
Vale destacar que algumas classes de anti-hipertensivos têm impacto menor ou até neutro sobre a função erétil. Os inibidores da ECA, os bloqueadores do receptor de angiotensina (BRA) e os bloqueadores dos canais de cálcio tendem a ser mais bem tolerados do ponto de vista da função sexual. O losartana, por exemplo, é um BRA que em alguns estudos demonstrou efeito neutro ou até levemente favorável sobre a função erétil.
Os antidepressivos e remédios psiquiátricos provocam disfunção erétil?
Sim, e esse é um dos grupos de medicamentos que mais geram dúvidas nos pacientes. Existe um paradoxo interessante aqui: a depressão em si é um fator de risco para a disfunção erétil, mas os medicamentos usados para tratar a depressão também podem causá-la ou piorá-la. O paciente muitas vezes não sabe para qual lado olhar.
Inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS)
Os ISRS são os antidepressivos mais utilizados no mundo e estão entre os medicamentos que mais frequentemente provocam disfunção erétil. Medicamentos como fluoxetina, sertralina, paroxetina, escitalopram e citalopram podem causar disfunção erétil, dificuldade para ejacular, anorgasmia e redução do desejo sexual.
O mecanismo pelo qual isso acontece envolve o aumento da serotonina, que inibe as vias dopaminérgicas relacionadas ao prazer e à excitação sexual. A paroxetina é considerada o ISRS com maior impacto negativo sobre a função sexual. A fluoxetina e a sertralina têm perfis intermediários. O escitalopram tende a ser um pouco melhor tolerado, mas todos podem causar algum grau de comprometimento sexual.
Inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSN)
A venlafaxina e a desvenlafaxina também estão associadas a efeitos sexuais indesejados, embora em menor intensidade do que alguns ISRS. A duloxetina, outro IRSN, também pode provocar disfunção erétil e dificuldade ejaculatória.
Antidepressivos tricíclicos
Os antidepressivos tricíclicos mais antigos, como a amitriptilina e a imipramina, têm efeito anticolinérgico e alfa-bloqueador que pode comprometer tanto a ereção quanto a ejaculação. Os médicos os utilizam menos atualmente, mas ainda os prescrevem em algumas situações clínicas.
Antipsicóticos
Os antipsicóticos, especialmente aqueles que elevam os níveis de prolactina, como a risperidona, a haloperidol e a clorpromazina, podem provocar disfunção erétil por meio de dois mecanismos: o aumento da prolactina, que suprime a produção de testosterona, e o bloqueio dopaminérgico, que reduz o desejo sexual. O aumento da prolactina é uma causa hormonal que precisa ser investigada no laboratório quando o paciente usa esse tipo de medicação.
Os medicamentos para próstata podem causar disfunção erétil?
Essa é uma pergunta muito comum no consultório, especialmente entre pacientes com hiperplasia prostática benigna. A resposta é que depende da classe do medicamento.
Inibidores da 5-alfa-redutase
Os inibidores da 5-alfa-redutase, como a finasterida e a dutasterida, são utilizados para reduzir o volume da próstata e tratar a alopecia androgenética. Eles atuam bloqueando a conversão da testosterona em di-hidrotestosterona (DHT).
O problema é que a DHT é um hormônio importante para a função erétil e para a libido, e sua redução pode provocar disfunção erétil, redução do desejo sexual e alterações na ejaculação em uma parcela dos pacientes.
Em alguns casos, esses efeitos persistem mesmo após a interrupção do medicamento, uma condição que a literatura chama de síndrome pós-finasterida.
Antiandrogênios
Os antiandrogênios, que os médicos usam no tratamento do câncer de próstata, como a bicalutamida e a flutamida, bloqueiam a ação da testosterona nos tecidos. Eles causam uma redução marcante do desejo sexual e da função erétil.
Os análogos do LHRH, como a leuprolida e a goserelina, que também atuam no tratamento do câncer de próstata, suprimem a produção de testosterona e têm um impacto direto e significativo sobre a função erétil.
Nesses pacientes, a disfunção erétil é um efeito esperado do tratamento oncológico, e o manejo é feito de forma individualizada, frequentemente com o uso de injeções intracavernosas ou com a indicação de prótese peniana, dependendo da situação clínica.
Outros medicamentos que provocam disfunção erétil: quais são?
Além das classes já mencionadas, outros medicamentos também merecem atenção.
Estatinas e fibratos
Embora a evidência seja menos consistente do que para outras classes, alguns estudos apontam para uma possível relação entre o uso de estatinas e a redução nos níveis de testosterona, o que poderia contribuir para a disfunção erétil em uma parcela dos pacientes. Os fibratos, utilizados para reduzir os triglicerídeos, também têm sido associados a alterações hormonais.
Cimetidina e outros antiulcerosos
A cimetidina, um antiulceroso mais antigo, tem efeito antiandrogênico que pode reduzir a libido e provocar disfunção erétil, além de ginecomastia. Os inibidores de bomba de prótons, muito mais utilizados atualmente, têm um perfil mais seguro do ponto de vista sexual.
Opioides
O uso crônico de opioides, incluindo a morfina, o tramadol e outros analgésicos opioides, é uma causa importante e frequentemente negligenciada de disfunção erétil. Os opioides suprimem o eixo hipotálamo-hipófise-gonadal, reduzindo a produção de testosterona e causando hipogonadismo secundário. Pacientes em uso crônico de opioides frequentemente apresentam testosterona baixa, redução da libido e disfunção erétil.
Medicamentos para queda de cabelo de uso tópico ou oral
A minoxidil oral em doses mais elevadas pode ter efeitos sobre a pressão arterial que, indiretamente, podem influenciar a função erétil. A finasterida oral para alopecia, como mencionado anteriormente, também precisa de atenção.
Digoxina
A digoxina, utilizada no tratamento de algumas arritmias cardíacas e insuficiência cardíaca, tem efeito estrogênico e pode reduzir os níveis de testosterona, contribuindo para a disfunção erétil.
Como identificar se a disfunção erétil é causada por um medicamento?
É fundamental fazer uma correlação temporal: a disfunção erétil teve início próximo ao momento em que o paciente começou a usar determinado medicamento? Houve mudança de dose? Houve introdução de um novo medicamento?
Essa correlação, junto com os exames hormonais e, quando necessário, o Doppler peniano com farmacoereção, permite ao médico identificar se existe uma relação de causa e efeito entre o medicamento e a disfunção erétil.
É importante que o paciente leve ao consultório a lista completa de todos os medicamentos que utiliza, incluindo suplementos e vitaminas.
Outro ponto relevante é que o simples fato de um medicamento estar na lista dos que podem causar disfunção erétil não significa que ele seja, obrigatoriamente, a causa no caso específico daquele paciente.
O que ocorre quando um medicamento está causando disfunção erétil?
A primeira conduta é sempre conversar com o médico que prescreveu o medicamento para avaliar a possibilidade de substituição por uma alternativa com menor impacto sobre a função sexual. Isso é possível em muitos casos, especialmente no contexto da hipertensão arterial, onde existem várias classes disponíveis.
No entanto, em algumas situações, a substituição não é viável por razões clínicas. Nesses casos, o tratamento da disfunção erétil é conduzido em paralelo ao tratamento da doença de base.
Medicamentos orais
A primeira linha medicamentosa para a disfunção erétil são os inibidores da fosfodiesterase tipo 5, como a sildenafila e a tadalafila. Eles são “facilitadores de ereção”.
Eles não criam a ereção por conta própria, mas melhoram o fluxo sanguíneo quando há estímulo sexual. Em pacientes que usam medicamentos anti-hipertensivos, o médico precisa fazer a prescrição com cuidado, pois pode haver potencialização do efeito hipotensor.
Por isso, o uso deve ser orientado pelo médico.
Injeções intracavernosas
Quando os medicamentos orais não são suficientes, têm contraindicações ou não funcionam adequadamente, a injeção intracavernosa é a segunda linha de tratamento.
O paciente aplica a injeção diretamente no corpo cavernoso do pênis e ela age localmente, gerando uma ereção em 10 a 15 minutos com rigidez ampla e persistente.
Para pacientes que usam medicamentos que comprometem o fluxo sanguíneo ou a resposta neurogênica, essa pode ser uma opção bastante eficaz.
Implante de prótese peniana
Para os casos em que as outras abordagens falham, ou para o paciente que busca uma solução definitiva, o implante de prótese peniana é o tratamento de terceira linha.
É um procedimento cirúrgico minimamente invasivo, com taxa de sucesso superior a 90% quando o médico o indica corretamente.
A prótese não cura a disfunção erétil, mas restaura a capacidade de ter uma ereção de forma confiável e segura.
Atualmente, existem dois modelos principais: a prótese semirrígida, que mantém o pênis em rigidez constante mas pode ser posicionada, e a prótese inflável, que permite ao paciente controlar quando quer ter ou não a ereção, proporcionando um resultado mais próximo do fisiológico.
Mudanças no estilo de vida podem ajudar quando os medicamentos provocam disfunção erétil?
As mudanças de hábitos de vida são a primeira linha de tratamento para a disfunção erétil, independentemente da causa. Perda de peso, alimentação saudável, prática regular de exercícios físicos, melhora do sono e redução do estresse são medidas que impactam diretamente a função erétil.
Em pacientes que usam medicamentos para hipertensão, diabetes ou dislipidemia, o controle dessas doenças de base por meio de mudanças no estilo de vida pode, eventualmente, reduzir a necessidade dos próprios medicamentos ou permitir doses menores, o que pode beneficiar a função erétil.
O que eu recomendo para quem suspeita que um medicamento está afetando sua ereção?
A minha recomendação é que você não interrompa nenhum medicamento por conta própria, isso é muito importante. A suspensão abrupta de anti-hipertensivos, antidepressivos ou outros medicamentos pode trazer riscos sérios à saúde.
O caminho correto é procurar um médico urologista e andrologista para que o médico investigue de forma adequada, correlacionando todos os fatores, e para que o tratamento seja individualizado para a sua situação.
Quando a causa da disfunção é um medicamento, há caminhos para contornar esse problema, seja com a substituição do medicamento, seja com o tratamento específico da disfunção erétil.
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As informações deste artigo têm caráter exclusivamente educativo e informativo. Elas não substituem a consulta médica, o diagnóstico ou a prescrição de um profissional de saúde habilitado. Procure sempre um médico urologista para avaliação individualizada do seu caso.

